segunda-feira, 13 de junho de 2011

Regresso com final feliz?



-Matilde! Matilde!!! Tu não vais acreditar! Vou voltar para Portugal! Eu vou voltar!
Afastei o telemóvel um pouco do ouvido. Matilde estava a gritar de euforia. “Não acredito! Tu vais voltar! Ó meu Deus! Rúben!!! Rúben! A Maria vai voltar!!”
Tinham passado seis anos, agora os meus vinte e oito anos já pesavam e estava a uma semana dos vinte e nove. Quando sai de Londres, regressei a Portugal durante uma semana e quando pude mudei-me para Cleveland. A cidade é gelada, seja de inverno ou de verão. Não estava habituada a este clima. Embora fria, Cleveland é um sitio maravilhoso, as pessoas são civilizadas e simpáticas. Completei o meu mestrado em dois anos e já trabalhava  há quatro no clube Cleveland Cavaliers. Tinha começado a estagiar lá mas rapidamente subi para postos melhores. Agora era Gestora do desporto nos Cavaliers.
         A minha vida tinha sofrido diversas alterações. Só ia a Portugal no Natal e no Verão. Embora a distância não perdi contacto com ninguém, ou quase ninguém. Diogo começou aproximar-se de mim quando estive em Portugal, percebi que a sua obcessão tinha ultrapassado todos os limites e que tinha sido ele a divulgar o meu namoro com… David.
         Não, nunca o esqueci. Permaneceu sempre na minha memória mas tive que seguir em frente na vida. Tornei-me um pouco como Vera, fria e calculista. Envolvi-me com vários homens, muitos do campeonato norte americano de basquete mas nenhum deles me fazia feliz como David fazia. Depois de estar com David, a relação mais longa que tinha tido foi de um mês. Continuava a ama-lo. Pensava nele todos os dias, sentia a sua falta todos os dias e tentava procurar novidades sobre ele, até o dia que entendi que ele também tinha seguido em frente com a sua vida. Mas isso não interessa para nada, a boa notícia é que iria voltar a Portugal e tinha conseguido o melhor emprego do mundo. Administradora Executiva do Sport Lisboa e Benfica. Não ia receber nem metade do que ganho em Cleveland mas a vontade de voltar a Portugal e de trabalhar no clube do meu coração fazia valer a pena.
-Peço imensa desculpa, mas tem que acordar. Daqui a cinco minutos vamos aterrar.
-Obrigada. – Estava ansiosa para ver a minha família, amigos... O meu irmão estava de casamento marcado e julgo que a Matilde estivesse muito próxima de ter data marcada também. Rúben já lhe tinha pedido em casamento. Estavam juntos há tanto tempo que só faltava o pedido.
-Maria!! Maninha feia!
-Meu querido Tiago! Como estás? Onde está o pai?
-Ficou em casa, está a fazer uma festa surpresa para ti.
-Então Tiago! Assim já não é surpresa!
-Se mentisse, irias saber que estava a mentir. Depois ias atordoar-me o caminho até casa… Assim ao menos vamos falando sobre coisas mais sérias. – Agarrou na minha mala e encaminhamo-nos para o seu carro. Em Cleveland o meu carro era um humilde Bentley Continental GT Speed. Infelizmente, tive que o vender. Estava a definir uma boa prenda de casamento para o meu irmão, talvez um Audi Q5. Agora o dinheiro não fazia falta e depois do que lhe tinham feito ao carro, ele merecia algo assim e o seu Peugeot 208 estava a dar as últimas.
-Calma aí, conversa séria? Maninho, acabei de vir de Cleveland, daquela cidade gelada e do meu querido apartamento T2. O que eu preciso agora é de desfrutar toda a beleza de Portugal. Necessito de praia!
-Pois, mas antes de desfrutares toda a beleza de Portugal, vamos para casa.
-Claro. Estou mortinha de saudades da mãe, do pai, da Matilde…

**

Já tinham passado duas semanas desde que tinha chegado a Portugal. As férias estavam acabar, só tinha mais uma semana e depois ia começar a trabalhar. Estava nervosa, ia ser uma nova experiência e tinha que ter muito cuidado com as decisões que iria tomar. Qualquer uma precipitada podia influenciar o Benfica não só financeiramente como desportivamente.
         Andava por Lisboa à procura de um apartamento perto do Estádio. Tinha ficado os últimos dias na casa dos meus pais, não tinha tido ainda muito tempo para procurar casas. Matilde disponibilizou-se para procurar apartamentos comigo. Começamos pelos belos apartamentos em Telheiras. Fiquei apaixonada logo pela primeira casa. Grandes janelas, uma área extensa e a casa muito modernizada. Matilde concordou que a casa era magnífica. O T2 no centro da cidade e perto do Estádio era caro mas valia a pena. Retrocedi na minha intenção de compra quando olhei para a paisagem da minha varanda. Mesmo em frente, conseguia-se ver o prédio onde tinha sido muito feliz uma vez.
-Estava a pensar, perto do estádio estavam a construir uns prédios… Podemos visita-los?
-Claro, mas essa zona é caótica quando há jogos de futebol. – Disse-me o senhor da imobiliária.
-Sim, mas eu não me preocupo com isso.
Matilde percebeu que algo me tinha deixado incomodada.
-Que se passa? Não estavas a gostar da casa?
-Vê-se o antigo prédio do David. Não quero viver aqui. – Estava segura disso, não queria viver junto de recordações. Matilde acenou com a cabeça. Fomos ver outro prédio, em frente ao estádio. A vista da varanda da sala era maravilhosa, conseguia-se ver todo o estádio e as suas imediações. Nem reparei muito na casa em si, mais na sua vista esplendorosa.
-É um T2 grande, muito amplo. Os dois quartos têm casa de banho e roupeiro. Já vem equipado e com equipamentos da LG. Tem óptimos acessos para…
-Ok. É meu.
-Diga? – Acho que o senhor ficou embasbacado com o que disse. Ainda nem tinha apresentado a casa, só a sala e eu já lhe tinha respondido afirmativamente.
-Eu compro, quanto é?
-É 210 mil euros mas se você quiser podemos negociar com o proprietário.
-Não necessito disso, obrigada. – o meu telemóvel tocava, como tinha vários toques para várias pessoas sabia que aquele era do trabalho. – Com lincença. Sim?
-Boa tarde, peço imensa desculpa estar a incomoda-la neste momento visto que só vem trabalhar daqui a uns dias mas o Sr. Presidente necessita da sua ajuda e pedia que viesse trabalhar mais cedo.
-Mais cedo? Como assim mais cedo?
-Agora. Era sobre a contratação de um jogador. Só falta a sua assinatura para a contratação estar concluída, como Administradora Executiva.
Sinceramente não me apetecia nada ir à SAD. Sei como funcionava, ia lá para assinar o papel e depois tinha que ser apresentada a todos presidentes, vice-presidentes, directores, funcionários… Ao mesmo tempo, não podia recusar prestar um serviço ao clube. Suspirei fundo para perceberem que não estava satisfeita com a decisão.
-Muito bem, eu vou. Mais quinze minutos e estarei aí.
-Obrigada.
-Não vais acreditar? Agora tenho que ir à SAD assinar uns papéis. Peço imensa desculpa mas trataremos das coisas amanhã?
-Claro, as horas que lhe der jeito.
-Pode ser às nove então?
-Claro, como a senhor quiser.
-Obrigada. – despedi-me do senhor. Matilde andava pela casa encantada com os seus recantos. – Matilde, despacha-te!
-Posso vir morar contigo?

*
-Tens a certeza que não queres vir comigo?
-Querida Maria, dispenso ouvir as lamechices do teu novo patrão e conhecer todos os seus ignorantes e ignóbeis sócios.
-Tem calma, eu resolvo a situação do Rúben quando começar a trabalhar. Quem sabe, pudera ser já amanhã.
-A animação da tua voz deixa qualquer pessoa felicíssima e contente mas confio em ti. Boa sorte para o trabalho.
-Obrigada Matilde, até logo.
Rúben tinha sido uma das preocupações de Matilde. Rúben tinha uma boa proposta não só para ele mas também para o clube mas Rúben adora o Benfica, logo decidiu ficar. Dirigentes e pessoas com poder do Benfica viraram-se contra ele e querem-no embora do Benfica. Assim que pudesse, era o primeiro assunto que iria resolver.
-Boa tarde. – disse à recepcionista – sou a Maria…
-Duarte. Um prazer conhece-la pessoalmente. Sou a Joana Mauricio, recepcionista da SAD. O presidente está à sua espera.
-É claro. Se me puder acompanhar até à sala.
-Claro.
Os escritórios eram enormes, estava desejosa de ver o meu. Entramos no elevador e subimos ao terceiro andar e percorremos mais uns corredores até entrarmos numa sala de reuniões. Lá encontrei vários homens que me olharam com um sorriso e de alto a baixo. Ressabiados.
-Boa tarde meus senhores, eu sou a Maria Duarte. Pedia que alguém me entregasse um relatório para me pôr a par da situação.
Joana entregou-me logo um mas quando o ia para abrir.
-Antes de mais senhora Duarte.
-Chame-me Maria.
-Maria… Eu sou o presidente, Luís Filipe Vieira. Este é o vice-presidente da secção de futebol, Augusto Silva e à sua esquerda tem o nosso director desportivo Henrique Fonseca. – Lembrei-me de quando o nosso director desportivo ainda era o Rui Costa. Tanto mudou este clube. – Estamos aqui hoje para finalmente concluir a transferência de um óptimo jogador. Este aqui é o director desportivo do Real Madrid e este o empresário do jogador em questão, Jorge Mendes, que deve já conhecer.
-De facto, não. Mas é prazer conhece-los a todos meus senhores. – Voltei a sentar-me para ler o relatório. O Sr. Augusto veio interromper-me.
-Sabe, eu sou contra este negócio. Vamos pagar nove milhões e meio de euros por um jogador que não é novo, não tem margem de progressão. É claro que ele tem muita garra, mas é defesa central e nove milhões mais dois jogadores dos nossos parece-me um pouco exagerado, não acha Sra. Maria?
-Nove milhões? Dois jogadores? Por um defesa central? Desculpe mas este negócio parece-me surreal. Como vão contratar este jogador?
-Sra. Maria, passo-lhe a explicar. Ultimamente o Benfica nem tem estado muito mal financeiramente. - Claro que não estava mal… Apenas alguns anos sem serem campeões, com contas esquisitas, pagamentos de juros elevadíssimos e todas as contas com números muito redondos, se é que me entendem. – mas os adeptos têm se manifestado e não podemos deixar que as coisas caiam mal. Por isso, trazemos um jogador que todos gostam e pronto, caso resolvido.
-Desculpe mas isso só irá resultar com uma quantidade de Benfiquistas. A outra nem quer saber disso, quer o Benfica campeão. A não ser que claro, este jogador seja o Eusébio ou o Sr. Mário Coluna. – Ouvi algumas das pessoas presentes a rirem-se. – Vamos lá a ver, quem é este bem dito jogador, salvador do Benfica pela sua garra e mística gloria?
-Maria?
O relatório caiu no chão, um arrepio percorreu o meu corpo e senti a vibração da sua voz junto do meu ouvido. Era ele, eu sabia que era ele. Não consegui virar-me para trás, permaneci no meu sitio, sentada.
-Impressionante, não me digam que se conhecem! – dizia o presidente surpreendido. – David, rapaz, como estás? – Finalmente levantei-me e olhei para ele acompanho por ela, a sua nova namorada já de longa data.
-Encontrei este Sr. no café lá em baixo. Um prazer em tê-lo aqui connosco. – dei-lhe um aperto de mão e de seguida à sua namorada.
-Sim, foi isso. Estou óptimo senhor presidente. Não cheguei atrasado pois não?
-Nada disso. Que coincidência, há coisas… Bem, sentem-se e vamos assinar finalmente os papéis. Só falta a assinatura da Sra. Maria e a sua.
Mantive-me a olhar para ele, continuava igual. Cabelo comprido aos caracóis, o seu nariz grande, as pequenas marcas. Tinha umas falhas no cabelo maiores, sempre disse que o ia acontecer cedo. Os seus olhos estavam fixos nos meus, nenhum de nós sabia como agir, o que fazer, o que dizer.
-Sra. Maria, quando puder ler e assinar…
-Claro. Eu gosto das coisas rápidas, o contrato é tal e qual como me transmitiram certo?
-Sim, sim.
-Então, mostre-me onde é os sítios para assinar. – Lá a Joana me mostrou os lugares e depressa assinei. – Meus senhores, peço imensa desculpa mas terei que sair. Com licença e até dia 22.
Abandonei a sala a mil, com a pulsação descompensada, respiração apressada e num nervosismo tal que ia a tremer. Quando cheguei ao carro, não conseguia encaixar a chave. As lágrimas queriam rebentar dos olhos mas eu não deixava, aguentava a pressão durante mais um pouco. Finalmente consegui ligar o carro e desapareci dali, sem rumo, apenas à espera que me dessem um lugar para estar, um sitio para descansar, para o cérebro repousar.

Quatro horas depois, Praia do Pescador, Costa da Caparica.

-Maria! Finalmente atendes, estava tão preocupada contigo. Já soube o que se passou, onde estás?
-Matilde, lembraste quando o Chico morreu? – O Chico era um amigo do meu irmão, também nosso amigo. Quando eu tinha 16 anos, o Chico faleceu atropelado por um carro. – Ficamos todos devastados. O Tiago levou-nos à praia do pescador, para ouvir as ondas do mar mas no final…
-Ficamos no carro a chorar que nem crianças. Recordamos os bons momentos que vivemos com o Chico e sentimos, no final, uma felicidade imensa.
-Eu não sinto isso, eu estou nesta porra de carro à três horas a chorar e não sinto felicidade nenhuma! Apenas tristeza, o coração apertadinho, vontade de desaparecer, ciúmes, inveja. Porquê? Tudo já passou, eu tinha metido isso na cabeça! Ele seguiu com a sua vida e eu com a minha! Porque raio estou assim?! Diz-me! Diz-me!
-Porque ao contrário do Chico, o David está bem vivo e ainda mais vivo e rico está o teu amor por ele.
-Eu lembro-me de tudo, tudo. Os bons momentos, os maus momentos. Os nossos beijos, as vezes em que ele dizia que amava-me, aqueles momentos só nossos, únicos. Parecem cicatrizes que nunca vão desaparecer! É como se eu fosse feita de cicatrizes, que por mais que queira esquecer, elas estão marcadas no meu corpo!
-Maria, tem calma. Vou-te aí buscar.
-Não necessito disso. Já estou mais calma. Amanhã é um novo dia.
-Tens a certeza?
-Absoluta. Vou agora ligar o carro, quando chegar a casa mando-te uma mensagem.
-Mas não te esqueças! Beijo grande!
Liguei o carro e parti para casa. Tentei dormir mas o pensamento era sempre o mesmo, David, David, David.


quarta-feira, 1 de junho de 2011

Por agora...


Uma semana depois:

Tinha razão, tudo iria acabar por ficar pior. Éramos assunto principal nas revistas de Portugal e Inglaterra. Na minha primeira semana de faculdade, todos olhavam para mim de lado, os professores utilizavam-me como exemplo de gestão de esforço e as fãs que David deixara em Portugal escreviam mensagens de quase ódio para mim. Sentia uma pressão enorme mas tirando isto tudo na faculdade houve uma pessoa que me surpreendeu. Chama-se Emma e era uma professora da faculdade. Tinha 36 anos e era da Escócia. Tinha-se mudado para Londres em busca de uma nova vida, um novo trabalho e em busca de um novo amor. Emma tinha sofrido muito. Quando a sua mãe morreu, ficou sozinha no mundo e entregou-se nos braços de Matthew. Acabou por se transformar no seu pior pesadelo.
“It’s him or your career. You chose.”
Deixava muito que pensar as palavras dela, acho que quando me disse isto pela primeira vez escolhi o David. Ao fim de algum tempo acabei por me tornar racional. Iria esquecer todo o percurso que tinha feito até aqui pelo David? Ia esquecer o sonho de vir a ser gestora de uma empresa? O David nunca desistiu dos seus sonhos, sempre me incentivou a seguir os meus sonhos. Ia desistir dos meus sonhos?
“Where, you will not have any sucess. You are seen like a WAG.”
Eu não era uma WAG. Não era uma caça-futebolistas, não era.
“You know, I had been in America… Cleveland. I have contacts in Cleveland. If you want, I can give to you… Her name is Georgia, she was a teacher in one of the most known university in Cleveland…”.
A partir daí já
não ouvi mais nada, entrei num estado de… nem eu sabia o que aquilo era. Sentia-me nervosa, como se o tempo tivesse a andar lentamente.
“Are you saying I must go? I must leave David?”
“Like I said, you chose. Him or your career”
Cheguei a casa, à grande casa, confusa e sem saber o que fazer. Nem Gustavo, nem David, nem a mãe ou pai de David estavam em casa. Ouvi o telemóvel a tocar, era Matilde.
“Maria!!! Tenho algo muito bom para te contar!!”
-A sério? Conta! – tentei fazer voz de alguém animado e feliz.
“O Rúben pediu para eu ir viver com ele! Eu vou viver com ele! Parece um conto de fadas!”
-Eu sabia que vocês eram feitos um para o outro! – Nunca pensei receber uma novidade destas e nem sequer dar um grito de alegria.
“Maria? Está tudo bem?”
-Sim, claro que está tudo bem.
“Falei com os teus pais. O teu pai já te contou o que aconteceu?”
-O que aconteceu? O que é que aconteceu?
“Riscaram o carro ao teu irmão”
-Hã?! Não acredito! E ninguém viu nada? Ele tem tanto estimo a esse carro! – Era o novo carro que o meu irmão tinha comprado com o seu dinheirinho. Era um volvo, não era um grande carro mas ainda estava a pagar o carro. Não era fácil comprar um carro.
“Viram… Quer dizer, não viram. Deixaram um bilhete.”
-Um bilhete?! A dizer?!
“Ordinária da tua irmã. Pagas tu por ela! Não precisamos de pessoas como vocês! Sanguessugas.”
O mundo caiu aos meus pés. Tudo isto tinha ultrapassado os limites. Agora era a minha família estava a ser ameaçada.
-Eu… Eu vou falar com ele e pagar-lhe os estragos no carro. – Tentava não chorar. O meu telemóvel fez um sinal, estavam-me a ligar. Era Vera. Há quanto tempo não falava com ela. – Matilde, a Vera está-me a ligar. Eu já te ligo. Beijinhos. – Nem deixei a Matilde se despedir, atendi logo que pude a Vera.
“Menina Maria, a desaparecida e nova Pop-star de Inglaterra! Conta-me como estás? Já choraste muito? Estás a desesperar?”
-Vera… Ainda gozas com toda a situação?
“Claro que não. Olha, vim a Londres, estou num Starbucks ao lado da London Bridge. Tu sabes qual é certamente. Vem cá ter! Beijo grande”
Desligou-me o telemóvel, era tão típico da Vera. Gostava de ser como ela às vezes. Quem é a pessoa que aparece numa tarde em Londres, sem avisar? Alguém que não é bom da cabeça. Fui de táxi até ao tal Starbucks ao lado da London Bridge. Aquela zona era muito rica logo aquele starbucks estava sempre cheio. Lá vejo ela, sentada na esplanada, apanhar o pouco sol que havia em Londres.
-Vera!
-Maria! How are my beautiful London girl?
-Podemos falar português?
-Claro que sim. Não sei como aguentas, este inglês é tão..
-Horrível, eu sei. – completei. Ela acenou-me a cabeça, concordando.
-Conta-me, como estão as coisas por aqui.
-Vera… Não me faças contar, tu sabes bem como estão as coisas por aqui.
-Mas tu não sabes como estão as coisas por lá, por isso trouxe-te isto. – Vera agarrou na sua pasta e tirou um molho de revistas. Em todas elas, aparecia um destaque a falar da nova namorada de David Luiz. Comecei por folhear todas as páginas, por ler todas as palavras, por irritar-me com todas as imagens que lá apareciam que acabei por chorar. Vera, gentilmente, retirou um cigarro da mala e colocou-o na boca. – Tens lume? – Ela sabia que não fumava, por isso cheguei à conclusão que ela tinha algo para dizer. Acabei por dizer que não baixinho, tão baixinho que nem deve ter ouvido. – Tu és popular em Portugal. Se te levasse agora para lá eras conhecida como a mais ordinária do país mas ao mesmo tempo, ganhavas uns milhares com passagens de modelos. Mas não é isso que tu queres… Tu não queres ganhar um belo dinheiro por despires-te para uma revista ou desfilares de bikini para uns rebarbados. Tu queres poder. Queres ter tudo sobre controlo, sobre o teu controlo. Adivinha? Em Portugal já não vais conseguir isso. Perdeste tudo lá. Aqui? Nenhuma empresa  quer uma modelo como máxima gestora. Oxford university não vai aceitar nada vindo de ti. – Continuava a ver as notícias falsas que apareciam sobre mim e ouvia com o atenção o que Vera me dizia. Doía-me cada palavra que dizia. – A minha pergunta é: Vais ser só a namorada do David?
O silêncio predominou o momento. As fotos, eu não as conhecia de lado nenhum, era tiradas discretamente e em diferentes alturas do ano passado. Se já sabiam em Junho, porque só publicaram em Janeiro? Vera agarrou na sua pasta e foi-se embora da mesa.
-Onde vais?
-Embora.
-Embora?! Para onde?
-Tenho que ir para Manchester. Só passei por aqui para te ver. Acompanhas-me ao aeroporto? – Fui atrás dela enquanto tentava chamar um táxi. – Deita as revistas para o lixo. – disse-me.
-Porquê?
-Não quero que olhes mais para elas. São mentiras. Sabes distinguir a verdade da mentira?
-Sei, mas as pessoas..
-E desde quando é que tu te importas com as pessoas? – Respondeu-me de forma arrogante. – Perdi-me agora. Depois de tanta luta que deste pelo Diogo, com o David viraste “mansa”?
-Não é isso que quis dizer…
-Por parte, acho que te perdi quando começaste a namorar com o Diogo. Ficaste a sofrer em silêncio mas continuavas espevitada e a lutar pelo que querias. Agora, com o David, perdeste a noção de liberdade, de luta.
-E o que hei-de fazer Vera!? Diz-me! O que hei-de fazer?! – A raiva, a fúria e a frustração libertaram-se desta maneira. Estava a gritar com uma amiga minha, na rua à espera de um táxi.
-Liberta-te. – Ela entrou dentro de um táxi e fechou a porta logo a seguir, sem dar-me qualquer hipótese de entrar. – Vai arejar. Eu sei onde fica o aeroporto mas tu não sabes onde está a tua cabeça, ou como está... Às vezes o coração é importante mas a racionalidade é mais.
Vi o táxi partir, Vera nem olhou para trás. Ainda tinha as revistas na minha mão. Vera tinha razão em uma coisa, precisava de arejar.
Andei junto à margem do rio Tamisa, onde vários estrangeiros tiravam fotos. Em todo o mundo se falava em crise mas Londres estava sempre cheia de estrangeiros. Lembrei-me do carro do meu irmão, que ele tanto estimava, da vergonha que os meus pais deveriam de estar a passar, da ideia errada que as pessoas agora tinham de mim… Estava-me a sentir desesperada, num sufoco enorme. A minha relação com David estava em risco, sem dúvida. Eu ainda o amava, como nunca amei ninguém e sabia que esse sentimento nunca ia mudar mas será que valia a pena? Valeria a pena arriscar uma vida com que sempre tinha sonhado por um homem? Às vezes temos que rescindir de várias coisas…

Na casa do David, à noite:

Antes de entrar em casa, limpei algumas lágrimas que estavam ainda nos olhos. Respirei fundo, a decisão estava tomada, não havia maneira de voltar atrás.
-Maria, onde você foi? Estava preocupado com você… - David abraçou-me, de seguida agarrou na minha cara gentilmente e deu-me um beijo, ao qual não correspondi. – Que se passa? Você está gelada.
-David, precisamos de falar.
-Falar? Estamos falando agora… - David sorria para mim ao mesmo tempo que me embrulhava num casaco dele.
-Não, precisamos de falar muito a sério. Quem está cá em casa?
-Toda a gente. O que precisamos de falar?
-Chama-os para a sala… - Fui andando para a sala. David chamou toda a gente para a sala enquanto eu já estava sentada numa cadeira.
-Maria, para quê esta reunião familiar? – Perguntou Gustavo. David ficou a olhar para mim, percebeu que era sério. Os meus olhos estavam vermelhos, ele sabia que iria chorar a qualquer momento. A minha respiração tinha-se tornado irregular, inspirei pela última vez antes de falar. Senti como se fosse a última vez que ia inspirar felicidade, alegria, amor…
-Eu vou-me embora. Preciso de ir, preciso de ser considerada alguém capaz. Eu quero ser a Maria Duarte, não a namorada do David Luiz. Quero ser alguém neste mundo, quero que me respeitem e quero ter controlo das coisas. – A minha cara estava cheia de lágrimas, não conseguia falar sem interrupções. Tinha vários soluços entre as palavras. – Vou para Cleveland, na América. Isto tomou proporções horríveis, sinto-me como se tivesse perdido tudo e sei que a partir do momento em que sair daquela porta irei perder talvez o mais importante para mim. Mas, às vezes temos que rescindir de muita coisa e eu peço que me compreendam. Eu tenho um sonho e quero concretiza-lo, necessito de concretiza-lo. Faz parte de mim e se não o fizer, vou deitar parte da minha vida para o lixo. – David olhava para o chão. Cobria a sua cara com as mãos e com os caracóis. A mãe do David olhava para David, um pouco chocada. Já o pai e Gustavo estavam atentos à minha conversa. – Eu amo-te mais que tudo David, preciso que saibas disso mas eu já sobrevivi a tanto, agora não vou ficar nesta casa a servir de tua namorada. Neste momento só tenho a certeza de uma coisa, a partir do momento em que eu passar aquela porta o “nós” deixará de existir e haverá apenas a Maria e o David, em sítios distantes e diferentes, com pessoas distintas. Eu serei passado mas eu quero que saibas que serás sempre o passado que quero que volte a ser realidade, que volte a ser presente. – Levantei-me, com as lágrimas na cara e limpei-as. Pedi desculpa ao Gustavo e aos pais do David e cumprimentei-os. Por fim, dei um beijo na  cara de David.
-Porque me está a fazer isto?
-Por favor, nunca venhas atrás de mim, nunca mais. Não mereço alguém como tu. Quero que sejas muito feliz David, mesmo muito. Amo-te, nunca vou deixar de o sentir.
Sai daquela sala e fui até ao quarto buscar a minha mala que por alguma razão já estava feita. Estaria tudo destinado?
Desci as escadas e olhei a última vez para David, tinha os olhos vermelhos mas não tanto como os meus. Deixei as chaves no móvel de entrada e fechei a porta. Adeus Londres, a minha aventura acabou aqui. Por agora…




Peço desculpa por ser tão irregular ultimamente mas com testes é um pouco difícil. Daqui para a frente tentarei postar com mais regularidade. Beijinhos e não se esqueçam de comentar :D

domingo, 15 de maio de 2011

"Tudo se vai resolver"

Já tinham passado alguns dias desde que chegamos a Londres. Os primeiros dias foi um caos autêntico. David foi aos primeiros treinos e enquanto tratavam de todos os problemas burocráticos por ele, eu tive que tratar dos meus. Fui à faculdade e começou logo por haver problemas. Ao que parece estava inscrita num estágio mas nunca me tinha inscrito para tal. Apenas tinha chegado há uns dias, como poderia já estar inscrita para tal coisa? Depois começamos a ver casas. Na zona de Chelsea, as casas que existem têm valores astronómicos. Acabamos por decidir alugar uma casa, enorme por sinal. Com ar rústico e cores escuras mas acolhedora por dentro. Depois de uma discussão enorme, David conseguiu-me convencer a não pagar nada. Nem sei como isso aconteceu. Hoje, depois de uma semana de férias muito trabalhosa, era o meu dia de descanso. Ou então, não. Tinha que ir ver o primeiro jogo de David mas enquanto estava a sair de casa, Matilde ligou-me.
-Matilde! Como estás?! Já tenho tantas saudades tuas. Tens que vir cá mais o Rúben um fim-de-semana! Vão adorar.
-Maria… Tenho más notícias.
-Más notícias? O que se passa amiga? Foi com o Rúben? Eu pensava que vocês estavam bem…
-Não, não é isso. Ouve alguém que falou. Maria, tu vens na Nova Gente.
-Hã?!
-A revista. E o pior
não é isso. Eles fizeram uma “reportagem especial” sobre a vossa relação. Sabem tudo. Têm fotos de tudo.
-Como assim fotos de tudo? Eu sou a única que tenho fotos de nós. Quer dizer, eu e os mais próximos obviamente.
-Não são fotos dessas. São todas daquelas tipo “Paparazzi”.
-Mas afinal o que diz na revista?
– Espera que tivessem apenas fotos e dissessem que era namorada dele. Mal o menos.
-Vou ler-te o que diz.
-Lê tudo, eu não interrompo.
-Então vamos lá… “David Luiz, ex-jogador do Benfica, tem um novo amor. Maria Duarte, portuguesa de vinte e quatro anos é a nova namorada de David Luiz. Conheceram-se há um ano e foi amor à primeira vista. Um amigo próximo de Maria, conta tudo à “Nova Gente”.

“Maria ainda namorava com Diogo quando conheceu David mas David só descansou quando conquistou Maria”. Para isso, a nossa fonte conta-nos que David ofereceu flores a Maria, convidou-a para jantar e almoçar. “Ela tinha namorado mas as coisas não estavam a correr bem e David andava apoiar nela nessa má fase do relacionamento. Ela andava tão frágil que acabou por trair Diogo com David. Diogo descobriu tudo pouco depois. Ela não teve coragem para contar-lhe”. Com a relação destruída, David pôde entrar em cena e conseguiu conquistar Maria. Aos cinco meses de relação, Maria mudou-se para o apartamento de David. “Ela não gostava dele, nem gosta. São amigos. Mas ela sabe o que pode ganhar com David. Ela teve que parar com os estudos porque não tinha dinheiro para continuar. O pai dela está desempregado e a mãe trabalha mas ela ainda tem um irmão. Teve que interromper os estudos. Ela sabe que David pode pagar-lhe os estudos”. E assim foi, David paga os estudos a Maria. – A história ainda devia ir a meio mas já estava a chorar. Era tudo mentira, não havia ponta de verdade. – Desde Setembro que as propinas são pagas pelo David e agora Maria foi para Londres com David. Uma amiga de David, comenta a relação. “A relação entre eles vai durar pouco. David vai acabar por perceber que é o único que sente algum amor e vai entender que a Maria só está com ele por causa do dinheiro.” Para além disso, Maria não se dá bem com os pais de David. “Eles sabem quais são as intenções dela. Não querem ter nada com ela. Nem querem que David tenha.”. Tentámos contactar Maria, David ou até o melhor amigo de David, Rúben Amorim mas sem resposta. Fica então toda a verdade sobre o casal.”
Maria, estás bem? Diz alguma coisa?
-Eu… Eu… - estava desesperada. Chorava e não sabia o que fazer. Sentia-me perdida, estavam atacar-me por todos os lados. Não sabia o que fazer. – Matilde, eu preciso de apanhar ar. Telefono-te logo, beijo grande. – A respiração era profunda e rápida, sentia-me tonta. Ainda ouvi algo Matilde a dizer algo mas não percebi. Sai de casa e fechei a porta, Gustavo estava no carro.
-Maria? Onde você vai?
-Eu… Eu tenho que apanhar ar. Vais andando para o jogo? Eu já lá vou ter..
-Mas onde você vai? Falta menos de duas horas para o jogo.
-Eu juro que vou. Não digas nada ao David, não quero que ele se preocupe.
-Mas o que tens?
-Preciso… A sério… Eu depois explico ou alguém vai-te dizer.
-Mau, é melhor eu ir com você.
-Por mim, tudo bem. Mas não faças perguntas.
– Gustavo percebeu que eu estava mesmo assustada com algo.
-Tudo bem, mas onde vamos? Está a chover…
-Não é muito… Vamos ao London Eye.

Fomos de táxi, durante todo o caminho Gustavo fez o prometido. Encostei a cabeça à janela do táxi, já chovia com alguma intensidade quando chegamos. Graças à chuva não havia muitas pessoas a comprar bilhete e pouco tempo depois já estávamos dentro da cabine. A cabine ia quase vazia, era hora de almoço e estava a chover torrencialmente. Para além disse, a London Eye era um sítio bastante caro de se visitar. Olhei para Londres, dava para ver quase toda a cidade.
-Não quer mesmo falar sobre isto?
Fiquei em silêncio. Não queria falar mas não dava para aguentar mais. Precisava de desabafar, precisava daquilo.
-Gustavo, nós somos o novo assunto da moda em Portugal. O pior é que eu sou dada como “Nereida Gallardo”. Interesseira e manipuladora, que não ama o David e que traiu o ex-namorado com o David Luiz. Eu não sei o que fazer, isto pode estragar tudo, toda a relação entre nós! – suloçava e chorava. Estava completamente desorientada. Gustavo estava chocado, não devia saber o que fazer. Eu devia estar a fazer uma figura de “dona de casa desesperada”. Ele não disse nada, apenas abraçou-me. Não me conhecia muito bem mas era uma excelente pessoa e excelente amigo. Passei o resto da viagem agarrada a ele, nem dei por chegar ao fim. Limpou-me as lágrimas e saímos da cabine.
-O David tem muita sorte em ter você. Não entendo porque está assim tão preocupada, ele acredita em você, sabe quem você é.
-Gustavo, o problema não é o David. Eu tenho total confiança nele, eu sei que ele acredita em mim e ele sabe quanto o amo. O problema é que, isto está a estragar todas as possibilidades de arranjar um bom trabalho em Portugal. Isso é que está-me a preocupar.
-Então não é por causa do David?
-Claro que não! Eu sei que posso contar com ele.

Gustavo abriu o guarda chuva lentamente. Não percebi bem a expressão na sua cara. – Ou seja, você acha que por causa disto as pessoas vão julgar você?
-Claro! Achas que vão-me contratar para ser gestora da EDP ou da PT com revistas a falarem sobre mim? É óbvio que não. Eles querem pessoas sérias, que não dêem muito nas vistas.
-Você arranja trabalho de certeza. Nem que seja aqui em Londres. Você já olhou bem para esta cidade? Com certeza que há emprego aqui para você!
-Mas…
-Nada de mas! Sê positiva! Agora vamos ver o jogo?

-Claro. – Gustavo levantou o braço e chamou o táxi, em Londres existiam tantos táxis na rua. Era fácil arranjar um. A minha preocupação aumentava com o passar do tempo. Sempre disse ao meu pai que iria ter dinheiro suficiente para pagar ao meu pai um bom carro e uma boa casa, que iria ser gestora de uma grande empresa, que iria vingar em Portugal. Agora, este meu sonho estava cada vez mais longe de se concretizar. Quando chegamos ao estádio, fomos para o camarote. Aqui era diferente, os camarotes de família ficavam junto do camarote presidencial. De facto, a uns cinco metros de mim estava o senhor Abramovich. Acho que nunca vi um jogo de uma forma tão apática. Nunca me exaltava com os jogos do Chelsea, apenas esperava que o David desse o melhor mas Chelsea não era o meu clube favorito, nem de Londres, nem de Inglaterra. David sabia-o.
Tentava afastar todos os pensamentos que envolvessem Portugal e revistas mas quanto mais o queria fazer, mais pensava nas revistas. Chegavam várias mensagens ao meu telemóvel, de apoio claro. Pessoas com quem já não falava há meses, talvez até anos, mandavam-me mensagens como se nada fosse. Odiava aquilo. Depois do jogo, contei a David tudo o que se passou. Não deixei de derramar algumas lágrimas, estava nervosa e ansiosa com o futuro a partir dali. David acalmou-me, disse que não era nada demais. “Tudo se vai resolver”, dizia-me. A verdade é que eu sabia que não era bem assim.


Obrigada Meninas pelo apoio! Embora demore imenso a colocar novos capítulos, chegam-me sempre mensagens de apoio e também comentários. Obrigada !

Beijinhos da Catarina e espero que gostem!

quinta-feira, 5 de maio de 2011

"Podes ter as que quiseres..."

Acordei com o som do telemóvel.
-David, és tu?
-Não, é o teu pai.
-Pai! Desculpa, pedi ao David para me ligar quando acordasse.
-Então mas ele não está contigo?
-Não pai, ele está em Chelsea, eu estou em Westminster. Só vou estar com ele mais logo.
-Então mas porque é que não me ligaste logo?
-Ó pai, estou em Londres. O que achas que fiz mal cheguei?
-Pronto, pronto. Eu entendo mas deixaste o pai preocupado.
-Desculpa pai, não foi de propósito.
-Então, e estás a gostar?
-Se estou a gostar? Estou adorar pai! Tens que vir cá, quando já estiver tudo mais organizado.
-Claro filha. – Esta resposta, vinda do meu pai, era um não muito grande. – Só começas na nova faculdade para a semana, não é?
-Sabes bem que sim pai. – Tinha uma chamada em espera, era o David – Pai, posso-te ligar mais logo? O David está-me a ligar. – Ou achava eu.
-Claro filha. Não te esqueças de tirar muitas fotos! E de mandar ao teu irmão!
-Claro pai. Beijinhos! Adoro-te! – Desliguei o telemóvel apressadamente e atendi à chamada. – David?
-Bom dia!
-Bom dia! Não me mandaste mensagem nenhuma.
-Mandei sim, umas dez. Uma a dizer que o negócio estava concluído. Uma a dar as informações do negócio. Uma a dizer que ia para o aeroporto. Outra a dizer que ia descolar. Outra a dizer que te amava. Outra a dizer que já tinha chegado. E outra a dizer que ia dormir. – Olhei para o telemóvel e estava lá o símbolo que representava as mensagens não lidas.
-Pois, se calhar eu é que não ouvi… O Gustavo está contigo?
-Está sim. Se você visse, não percebíamos nada do que os homens estavam falando. Quer dizer, perceber até percebíamos, se eles falassem calmamente e sem aquele sotaque! Depois para eles nos entenderem, era pior ainda! A nossa sorte é que o Chelsea mandou um “tradutor” e simplificou as coisas para a gente!
-Eu adorava ver isso! Então tu e o Gustavo juntos! Vocês nem devem ter feito esforço nenhum para entender as pessoas mas devem ter gozado com elas, um pouco.
-Não amor! Você acha mesmo?
-Um pouco.
-Pronto, vá, brincamos um pouco com um senhor que era gordo, ruivo e tinha bigode, depois com umas calças bem giras aos quadrados e uma blusa verde florescente!
-Eu sabia! Vocês juntos…
-Pois, o pior é o que veio a seguir!
-O que é que vocês fizeram?
-Pois, esse senhor era o nosso tradutor! O Gustavo me disse “Olha para esse aí! Não queria trazer uma bandeira para se notar?” e eu disse-lhe “Gugu, sabe com quem é que esse se ia dar bem? Com o Pinto da Costa! Barriguinha sensual, cabelo como o Villas-Boas… Era amor à primeira vista! Imagina só, próximo treinador do Portinho”. Não é que o tal senhor, responde-nos “Boa noite. Sou o António, o vosso tradutor”, num português perfeito! – Eu desmanchei-me a rir, não queria acreditar. Mau demais para ser verdade. – Apeteceu-me tanto atirar para um poço naquele momento! Ou então esconder-me num buraco! – Eu, continuava a rir desalmadamente. Se eu estava assim só de saber pelo telemóvel, ao vivo então, era capaz de cair de tanto rir.
-Vocês pá! São sempre a mesma coisa! Coitado do homem!
-Não temos culpa. Se você visse, o bigode era ruivo também e depois com aquela blusa! Ficava mesmo bonito!
-Bem vindo a Londres. Aqui as pessoas andam como querem, sem terem esse tipo de “tabus”.
-Nada disso impede as pessoas de se vestirem bem.
-És mesmo parvinho. Quando começar a mostrar-te a cidade vais perceber que não é bem assim.
-Eu gosto dessa parte. O seu inglês vai ser a minha salvação.
-Nossa, David, nossa! – Ouvia o Gustavo gritar.
-Vocês vão fazer que aprendem inglês num instante. É bastante fácil, muito mais fácil que o português.
-Estou para ver isso. Olha, almoçamos juntos?
-Claro, onde queres comer?
-Amor, eu daqui não sei nada! Você é que conhece um pouco a cidade…
-Pois… Então diz-me, qual é mesmo o Hotel onde estás?
-No Hotel “The Berkeley”.
-Amor, achas que consegues-me soletrar?
-Claro que sim… The Berkeley.
-Que gracinha!
-Eu não sei como isto se diz correcto, quanto mais como se soletra!
-Também, que raio de hotel onde vos puseram. Não interessa, eu dou conta disso. “The Berkeley”, certo?
-Sim. Isso… A que horas vem?
-A que horas estás despachado?
-Perto das 11 horas.
-Então às 11 horas certas estou aí.
-Obrigado meu amor, estou te esperando. Tenho tantas saudades.
-Aí já começa o mel! Nem há dois dias estão separados e já estão assim. Incrível! – Ouvia Gustavo a resmungar. Já era habitual, passava metade do seu tempo livre a gozar comigo e com David.
-Calou ó moço. Estou a falar com a minha namorada perfeita! Porque você não fala com a sua… Ups, me esqueci, você não tem. – Começaram. Sempre, sempre na brincadeira. Juntar estes dois homens era ter o jardim de infância de volta.
-É David… Agora anda aprendi boquinhas novas… Vai, continua aí batendo o papo com a sua “namorada perfeita” – disse, imitando a voz de David – enquanto eu vou namorar as torradas, ovos e bacon do Hotel! – Eu já estava oficialmente fora da conversa. Agora era o tempo de brincadeira deles.
-E você vai como? Não percebe nada de inglês!
-Com você também não ia longe!
-Eu sei falar inglês, quer ver? Amor, fala aí um pouco de Inglês para o Gustavo ver!
-Primeiro, eu não sou tu. E segundo, não é ver, é ouvir. Agora, já estou farta de vos ouvir, ou então “Já ‘tou cheio de te ouvir!”, por isso, vai comer mais o Gustavo. Qualquer coisa, liga-me!
-Você está-me a despachar?
-Não, estou a despachar os dois. É diferente. Beijinhos rapazes, amo-te meu gordo!
-Viu David? Ela me ama, não a você. Sou mesmo bom, hein?
-Ah-ah, gracinha meu irmão, gracinha. Também te amo, beijo. – Desliguei o telemóvel ainda a rir. Sem dúvida que eles sabiam como começar o dia. Já eram amigos há vários anos e adoravam-se. Seria daquelas amizades para sempre, tenho a certeza.
Agarrei no meu pequeno livro sobre Londres e comecei a procurar onde ficava esse hotel.
“Ele disse The Berkeley ou The Barkeleis? Se calhar até foi The barkel.” – Pensava para mim. Já estava confusa e ainda nem sequer tinha chegado às páginas do livro correspondentes à zona de Chelsea. Encontrei lá o Hotel The Berkeley, para variar de cinco estrelas. Como estava meio perdida, decidi que ia de táxi. Era mais caro mas melhor, se me perdesse era muito pior. Também, estava no “The Ritz”. Quem está no “The Ritz” não deveria de andar de metro! Devia de ter um Ferrari alugado para andar pelas cidades de Londres mas eu era quase como uma menina do campo na grande cidade. Despachei-me rapidamente mas depois lembrei-me da história do Ferrari. Olhei para a ementa que estava numa mesinha dourada encostada a parede. Podia não ter um Ferrari, nem sequer um carro mas pelo menos ia cumprir um sonho!

-Room service Miss Silva. I have you breakfeast. – Batiam-me à porta passados quinze minutos depois de eu ter feito o pedido. Isto sim, era vida. Abri a porta e o senhor pediu licença para entrar, deixei-lhe entrar e vi aquelas grandes mesas com rodinhas que aparecem nos filmes. Nem sei bem o nome daquilo mas era lindo. Prateada, por mim até parecia prata. O senhor estava vestido como o mordomo, mas em Portugal passava por doutor. A comida estava num belo conjunto de jantar, que parecia acabado de sair do Palácio de Buckingham. Os pratos tinham desenhos em dourado e os talheres eram de prata.
-Where’s you English Breakfeast, madame. What can I do more for you?
-Help me eating this, it will be a Great help, I’m sure.
-Thank you, madame. It will stay for other oportunity.
-Please! Look, I have bacon for thirty persons!
-Don’t worry…
-Be happy. – Interrompi, era forte demais para mim. Adorava fazer isto.
-Well, I should go. Goodbye madame.
-Goodbye and thanks! – O senhor saiu e ao fim de um bocado lembrei-me de algo bastante importante. A gorjeta! Como me pude esquecer! Mesmo assim, neste hotel, a gorjeta dos empregados devia de ser o meu antigo ordenado ao final do mês. Era melhor estar quietinha. Era comida à mais. Só a fruta que trazia era suficiente para me alimentar. Várias fatias de bacon, fiambre, dois pães, pão para fazer torradas e dois croissants. Cereais, salsichas, um arroz esquisito, ovos estrelados e mexidos e ainda tomate cortado às fatias. “English Breakfeast”, não hão dos ingleses serem gordos. Se eu comesse isto todos os dias, tinha um Enfarte miocárdio ainda antes de chegar a Portugal mas estava em Londres e tinha que esquecer a deliciosa comida portuguesa e os bons hábitos de Portugal.
Sai do Hotel eram dez horas e meia, tinha feito o “check-out” e esperava ansiosamente por reencontrar o David.

Visão do Diogo:

-Foi para onde?!
-Inglaterra. Mano, tem calma. Andas um bocado obcecado. Esquece a miúda. Ouve, tu podes ter todas as gajas que queres, cada uma mais boa que a outra. Porque raio queres tanto esta? Ela nem é grande coisa… Vá, é muito gira mas é a tradicional portuguesa. Não é… caliente! Entendes puto?
-Meu cala-te! A Maria era diferente. Ela era minha e há-de ser. Ela vai acabar por ver que sem estudos não se chega a lado nenhum e daqui a uns meses, vai bater-me à porta.
-Meses? Quantos meses mano? O gajo é podre de rico!
-Nem que sejam anos, ela vai voltar. Ela sabe que eu sou o homem perfeito para ela. Meu, eu não quero parecer convencido mas… Porra, eu sou rico, tenho um porsche, uma empresa, tenho um T3 no parque das nações e não sou nada feio… Eu estou muito perto de ser o homem perfeito.
-Eh-eh, isso não foi nada convencido, Bro! Bem, vou ter que desligar. Las chicas de Cuba estão à minha espera.
-Fazes bem pá, tu… Tu também estás muito próximo de ser o homem perfeito.
-Sabes como é, sou parecido contigo!
-É mesmo isso mano. Vai lá para as putas de cuba, e vê lá se comes bem aí em Cuba.
-Meu, e se não vou comer. Adeus meu puto.
Carlos desligou-me o telemóvel. Fiquei na minha secretária estático durante alguns segundos. Aquela cabra tinha-se mudado para Londres, parecia que tinha esquecido tudo o que se tinha passado entre nós. A raiva estava a superar a minha racionalidade, tinha que a expulsar. Acabei por derrubar tudo o que tinha em cima da minha secretária. Isto não ia ficar assim, não ia não.
-CARLA! – a estúpida da nova secretária não devia de ouvir bem. – Carla!!
-Desculpe doutor, posso entrar?
-Claro que pode! Se a chamei é óbvio que pode! Procure-me o contacto da Daniela Macedo.
-Claro doutor, procuro já. – Ela podia ser burra mas os decotes e mini-saias que ela trazia eram suficientes para permanecer como minha secretária. Isso e o bom serviço que ela fazia, trabalhava muito a rapariga, principalmente ao final da tarde, quando a empresa já está vazia.
-Carla? Vais demorar?! – Mas às vezes, a burrice tira a sensualidade toda das mulheres.
-Está aqui senhor doutor, mais alguma coisa? – Sentou-se em cima da minha secretária, queria coisa a rapariga.
-Não, não. Podes ir embora. Chamo-te se necessitar. – O desalento era visível, saiu sem dizer palavra. Telefonei logo que Carla saiu, para Daniela. Ao fim de dois toques, Daniela atendeu. Sempre muito certa esta rapariga, quer seja em toques de telemóvel ou horários. – Daniela, minha querida…
-Diogo! Há quanto tempo não falávamos. Já sentia saudades tuas!
-Pois, pois… Olha, preciso de um favor teu.
-Tudo o que quiseres.
-Não é um favor, é mais uma grande história para te contar.
-Como assim? Para eu publicar na revista?
-Ora bem… Queres combinar algum sitio ou conto-te por aqui?
-É melhor falarmos em particular. Onde?
-No Pestana Palace. Eu vou ligar para lá, uma suite de luxo para nós dois?
-Vou já a caminho. – Desliguei o telemóvel e preparei-me. Vesti o meu blazer e sai pela porta.
-Carla, se alguém ligar diga que estou numa reunião urgentíssima.
-Claro doutor.
Cheguei ao Hotel, Daniela já estava na entrada à minha espera. Fui a seu encontro e quando fui para a cumprimentar, deu-me um beijo. Mulheres de hoje em dia. O que se poderia fazer?
-Daniela, com calma minha querida. Vou buscar a chave. – Sai de perto dela,  continuava a mesma bomba de sempre. Loira, medidas certas, 80-60-80, um metro e setenta e cinco, uma autêntica deusa. Quando voltei para perto dela, com a chave na mão, reparei no olhar dela. Parecia que me iria comer, era preciso ter cuidado com esta. Chegamos ao quarto e saltou logo para cima de mim. Beijou-me o rosto, os lábios, o pescoço. Eu claro correspondi-lhe. Ela começou por retirar-me o blazer, depois desapertou-me a camisa. Nesta altura, já estava por cima dela, na bela cama de casal enorme. Retirei-lhe a camisola e acabei por dar uma puxadela no soutien, não estava com paciência para retira-lo. Chupei os seus lindos seios, eram perfeitos. Grandes mas não em demasia, toda a Daniela era perfeita. Mas lá está, as gajas boas têm um problema, falam. Daniela gemeu e sussurrou ao meu ouvido.
-Diogo… - Impressionante, parecia mesmo a Maria. Tudo aquilo fez-me cair à realidade e ao verdadeiro motivo que estava ali. Sai de cima dela e comecei abotoar outra vez a camisa. Daniela olhava para mim, exactamente com a mesma expressão que Carla tinha feito.
-Veste-te, vamos falar de negócios.
-Eu pensava que “isto” era os negócios.
-Pois pensaste mal… É uma história tão boa que tu vais passar de uma trabalhadora normal para presidente daquela revista… Como se chama?
-Nova Gente, e eu já sou a vice-presidente da revista. Não preciso de subir mais alto.
-Ora estás enganada, precisas sim. Toda a gente precisa. Agora, estás pronta?
-É sobre quem?
-Um antigo jogador do Benfica.
-Uí, esses vendem bem! Quem? Rui Costa?
-Não… David Luiz.
-David Luiz?! Não posso! O que descobriste sobre ele?
-Então é assim, ele e a Maria, a ordinária com quem eu andava sabes? Eles são namorados há mais de um ano.
-O quê? Impossível! Isso é impossível! Como é que eles namoravam à mais de um ano e ninguém sabia?
-Ela nunca quis que ninguém soubesse. Mas pronto, não interessa. Queres saber mais ou não?
-Quero saber tudo!! E fotos? Tens fotos?!
-Eu tenho tudo.
-Ó meu Deus! Isto vai ser a bomba do ano!
Depois de lhe explicar toda a história e de Daniela anotar tudo no seu portátil, pediu-me fotos. Eu dei-lhe a minha pen, com todas as fotos que eu tinha deles. Parecia um pouco esquisito mas… Tinha mais de quinhentas fotos deles os dois. Tinha contratado Jorge, um detective privado. O melhor segundo o meu pai, conseguia sempre tudo e era bem verdade. Jorge era um artista. Durante meses e meses, Jorge seguia Maria, tirava fotos a Maria com David, anotava tudo o que faziam, depois desenvolvia um relatório ao final do dia e envia-me. Na pen estava tudo, desde informações dos sítios onde eles iam até fotos mais intimas. Tenho que dizer, as fotos intimas fizeram despontar uma fúria enorme em mim. Agora, Maria ia sofrer.
-Mas há mais.
-Mais?!
-Sim. Agora é preciso que me faças um favor.
-Claro, diz…
-Inventa tudo o que for preciso para acabar com a relação deles. Destrói a relação deles.
-Diogo, eu…
-Daniela… -Agarrei-lhe no braço e apertei-o com um pouco de força. – Se queres as informações faz o que eu te digo.
-Claro Diogo, assim o farei.
-Quando é que a entrevista sai então? – Larguei, por fim, o braço dela. Estava um pouco vermelho mas deu para ela compreender.
-Na próxima edição.
-Perfeito então… Vamos tratar do nosso outro negócio? – Daniela mordeu o lábio inferior, não foi preciso resposta.


Visão Maria:

Já estava há tanto tempo à espera de David. O relógio já marcava onze horas e meia e nada de David. Finalmente, chegou. Abracei-o como pude, ele correspondeu e fez o mesmo. Deu-me um suave beijo e depois parou a olhar para mim. Os seus olhos eram lindos, tinham uma profundidade incrível. Agarrei-o na mão e ele apertou com força, adorava quando me fazia aquilo. Para mim, mostrava o quanto a nossa relação era forte e que era preciso muito para quebra-la. Gustavo vinha atrás, olhou para nós a rir. Já sabia que ia começar a gozar mas desta vez ficou em silêncio.
-Então, como foi a tua recepção?
-Foi óptima. Já falei com o Torres, muito simpático. Entendi o que ele disse, hein?
-Olha, se fosse eu não percebia puto. Espanhol… Não gosto nada. Então, querem comer onde? Estão com cara de esfomeados!
-Nem me diga nada, Maria. Tivemos que sair à pressa e não aproveitamos nada do pequeno-almoço enorme! – reclamava Gustavo. Já eu não podia dizer o mesmo. Ainda estava cheia do almoço.
-Bem, eu não conheço esta zona por isso, vamos para Piccadilly Circus?
-Amor, circo? Eu tenho fome! Não quero ver palhaços agora, não. – Desmanchei-me a rir, acho que a única coisa que estes dois conheciam de Londres era os clubes de futebol.
-David, não é um circo. Circus significa circulo, ou seja, Piccadilly Circus é uma praça. Basicamente, é uma praça onde se cruzam várias ruas.
-Há sitio para comer, não há?
-Sim, há.
-Então vamos aí. – Congratulava-se Gustavo.
Percebi que David tinha ficado um pouco para trás.
-Que se passa?
-O inglês… Isto vai-me causar bastantes dores de cabeça.
-Vais-te sair bem. Daqui a um mês já falas muito bem inglês, aposto!
-Você  vai ter que me ajudar.
-Sabes bem que sim, podes contar comigo para tudo.


Peço imensa desculpa pela demora, no sábado coloco outro capítulo. 
Beijinhos, Cat*