sábado, 22 de janeiro de 2011

Prenda de Natal - Parte I

-Olá Tia! Tudo bem?  
Era a noite da véspera de Natal. Como era habitual, havia sempre o jantar de família e a troca de prendas à meia-noite. Éramos uma família simples mas muito unida. O David já se tinha ido embora há três dias, agora só falávamos por mensagens e às vezes ele ligava-me para “ouvir a minha voz”. Certas vezes nem falávamos, ficávamos só ao telemóvel a ouvir a respiração um do outro. Parece estranho e estúpido, mas não há maneira para explicar. Sentia-me mais próxima dele todos os dias e as saudades aumentavam a cada dia que passava. Dias antes de ele ir-se embora, dei-lhe uma prenda. Pedi para não abrir, só no Natal, tal e qual como a minha prenda. Essa estava na minha mala, era uma caixa pequena, mas a vontade de abri-la era muita. Nos dias antes da partida, todos os momentos com David eram precisos. Almoços, conversas ao telemóvel, passeios. Sempre que almoçávamos juntos fazíamos em sítios de confiança ou então sítios completamente vazios. Os passeios por sua vez eram na praia (que no inverno está completamente deserta) ou em parques. Nunca nos exponhamos em centros comerciais ou até em sítios com muitas pessoas. Não é que agíssemos como namorados, nada disso. Apenas dávamos passeios e falávamos, há muitas pessoas que fazem isso e que não têm relacionamento algum mas não queria que alguma revista nos apanhasse e fizesse disso notícia da semana. A minha vida é a minha vida, mais ninguém tem haver com ela. Sou uma pessoa, não uma notícia de jornal.
-Olá filha! Aí, estás tão diferente! Olha para isto! Uma mulher! Ó Fausta! Fausta! Anda cá ver a mulher que nós temos aqui! – dizia a minha tia Carolina. Da parte do meu pai tinha duas tias, a Tia Fausta e a Tia Carolina. Sempre me trataram como sua filha. A tia Fausta era casada com o tio Carlos. Tiveram dois filhos, infelizmente um morreu aos dois anos de pneumonia. Embora já se tivessem passado vinte anos a minha tia nunca esqueceu a morte do filho mas amava a sua filha, Joana, de dezoito anos. A minha Tia Carolina era casada com o meu Tio Miguel e juntos tinham dois filhos, Miguel João e João Miguel, de dezasseis anos. Eram gémeos, se já era difícil diferencia-los, imaginem agora com o nome quase igual! Da parte da minha mãe tinha o Tio Francisco que era casada com a Tia Francisca, o casal “Chico e Chica” como eram conhecidos na nossa família. Tinham um filho, o Tomás, de vinte e cinco anos. Era o mais velho de nós, os primos(tirando o meu irmão). Depois tínhamos o último, o Tio Alexandre que era casado com a tia Maria, juntos tinham um filho, Frederico. Uma família grande de facto e eu adorava o Natal por isso mesmo. Eram raros os dias onde juntávamos a família toda. Fazendo as contas, 5 casais e 8 primos. Complicado sentar aquela gente toda mas a sala era grande e cabiam lá todos. A minha tia Fausta veio logo a seguir.
-Aí a minha sobrinha linda! Olha lá para isto!
-Tia! Como está? Há tanto tempo!
-Aí filha, já não estou tão rija como antes. Dói-me as pernas e as costas, devo ter qualquer coisa.
-Tia, não seja assim. Você está óptima!
Seguiu-se os cumprimentos ao resto da família. Era muito próxima de Joana, quando me viu abraçou-me como se não houvesse amanhã. Em miúdas éramos quase como irmãs, vivíamos perto uma da outra, depois a minha tia mudou-se para a Margem Sul. Afastamo-nos um pouco mas a intimidade continuava a mesma. Tomás estava vestido de fato e gravata, já nem o conhecia. Estava tão diferente, parece que depois de velho tinha crescido. Ele sempre foi muito ambicioso e foi isso que levou-o a cargos altos. Era um dos assessores de Paulo Portas, passava mais de metade do ano fora de Portugal por viagens em todo o mundo a fazer negócios. Para ele era tudo uma questão de negócios e um bom negócio implicava dinheiro. De facto, a única vez que vi o Tomás feliz foi quando ele teve um caso com Vera, a partir daí foi sempre uma pessoa fria e calculista. Acho que o facto de ela ser muito parecida com ele fez com que ele se apaixona-se e nunca mais voltou a ser o mesmo. Mesmo assim, Tomás era uma pessoa fascinante, com uma QI fora do vulgar. Cultura Geral era com ele. Os gémeos jogavam consola ao lado de Frederico, o “génio dos computadores” como lhe chamava. Era Engenheiro Informático mas era mais um hacker do que Engenheiro Informático. O meu irmão falava ao telemóvel perto da janela da sala. A minha cabeça começou logo a magicar. “O meu irmão, ao telemóvel, no dia de Natal?! Não pode ser! Queres ver que… Aí, vou ter que saber!”. Coloquei a minha prenda na árvore de Natal e fui ajudar as mulheres na cozinha enquanto os homens falavam de futebol sentados à mesa na sala, a comer camarões e a beberem cerveja. Assunto principal: Benfica.
-Mãe, queres ajuda em alguma coisa?
-Olha filha, não há nada para fazeres. Já somos tantas que despachamos isto tudo num instante.
-Realmente e esta cozinha é pequena para tanta gente. – Dizia a tia Maria.
-É pequena hoje e grande amanhã, Maria. Já tenho saudades de quando eles eram pequenos e passavam os dias a correr pela casa adentro.
-Ó mãe, mas não te preocupes, isso resolve-se. Amanhã estou cá para comer também!
-Filha, sabes que não é bem isso que quero dizer. Tu saíste de casa, o Tiago mais um ano e põe-se andar também e depois fico só eu e o teu pai. Tenho que decidir o que fazer com aqueles dois quartos.
-Olha Zita – A minha mãe chamava-se Maria José mas toda a gente tratava-lhe por Zita – vende esta e compra uma casinha pequena. – dizia a minha tia Carolina.
-Deixem-se lá de coisas que eu quero é saber das nossas meninas. – Agora era a vez da minha tia Chica mostrar a sua faceta coscuvilheira – Como vai de namoros?
-Tia, já sabes tudo sobre mim. Eu continuo encantada com o meu namorado Pedro. – Joana namorava com Pedro desde dos quinze anos de idade e por mais incrível que pareça, eram feitos um para o outro. Completavam-se de uma forma fascinante e amavam-se de uma ainda mais impressionante.
-Qualquer dia casam-se. – dizia a minha mãe.
-Cala-te mulher! Ainda são muito novos! – “Namoros antes dos trinta, jamais!” dizia sempre a minha Tia Fausta. Lembro-me de ela dizer isto desde muito novinha.
-Então e tu, Maria? – Já sabia que tinha que vir para o meu lado. Nunca escapava nada à minha tia Chica.
-Eu? Olha tia, eu terminei a minha relação com o Diogo.
-Aí querida, o que aconteceu. Conta a tia! Senta-te aqui. – Sentei-me ao lado da minha tia Carolina. Joana também se sentou, a cara dela foi de choque, não estava à espera de tal coisa. A verdade é que só os mais próximos sabiam do fim da relação. – Então, ele andava-me a trair com uma fininha qualquer. Nem aí, nem uí. Terminei tudo com ele.
-E como estás Maria? Foi uma relação de longa data. – Perguntava a minha tia Maria. – Destino cruel.
-Sabes tia, agradeço a Deus por nos ter separado. O meu pai sempre teve razão, ele não era homem para mim e a verdade é que, se ele me amasse tanto como dizia, não tinha feito nada daquilo. Estou melhor do que nunca.
-Aí que o rouxinol anda perto. – disse a tia fausta.
-Quem é o rapaz?
-Que rapaz?! – Interrogava a minha mãe já preocupada. – Maria Duarte! Tu vê lá no que te metes!
-Rapaz? Que rapaz? Não anda rapaz nenhum! Agora eu quero estar em paz, sossegada e estou bem assim. Homens não me fazem falta nenhuma.
-Querida, o homem, faz sempre falta. Embora alguns comportamentos são eles é que nos fazem companhia.
-Bem tia, tens razão mas… estou à espera do homem ideal. Do homem dos meus sonhos, o que me trás flores, me leva a sair, que se preocupa comigo dia e noite e que me surpreende todos os dias. – Acabei por fazer um sorriso parvo, lembrei-me de David e como esta caracterização lhe era perfeita.
-Aí que sorrisinho é esse?
-Por favor, não contem isto aos homens da família. O meu pai não sabe e o meu irmão nem sonha! Nem pode saber! – Acenaram afirmativamente com a cabeça - Já falei que trabalho no Benfica? – tentei desviar o assunto.
-A tua mãe já nos contou. Como está a correr?
-Lindamente. É muito bom mesmo! Eu adoro!
-Ó prima, e o jeitoso aos caracóis, ele vai sair do Benfica agora? – “Aí prima, tão próxima que tiveste agora”, pensei. Engoli a seco, não sabia nada sobre isso. Primeiro porque não queria saber, segundo porque não falava disso com o David. Queria aproveitar todos os momentos com ele, junto dele. Não queria falar de coisas que poderiam ferir os meus sentimentos.
-Não sei Joana, eu sou Guia de visitas ao Estádio da Luz, não gestora da SAD Benfiquista.
-Hás-de lá chegar, filha. Bem, vamos levar as coisas para lá, está na hora de jantarmos, já está tudo pronto.
Já era quase oito horas quando a comida foi servida a mesa. Como éramos muitos estavam duas mesas, uma para os casais e outra para os primos. Aqueles jantares eram sempre divertidíssimos, sentia uma saudade enorme de ser criança outra vez, das brincadeiras que tínhamos quando íamos todos de férias ou para o norte ou para o Algarve. Era maravilhoso. Tiago, rezingão como sempre estava ao meu lado só a chatear-me.
-Então Maninha, e o David?
-Hã?
-Sim, o teu amigo.
-Eu sabia Maria! Estavas a esconder alguma coisa na cozinha, quem é o David? – perguntava Joana.
-É um amigo, um grande amigo que me ajudou a superar o fim da relação com o Diogo.
-Um amigo? Tu a mim não me enganas. Olha para ti! Estás feliz! Uma pessoa quando termina uma relação não fica feliz.
-E prima, acabaste com o Diogo? Ele arranjava uns jogos tão curtidos para a PS3. – dizia João Miguel.
-Curtidos? Então e a PS3 que ele nos deu o ano passado? Lembra-te que só tens os jogos porque ele nos deu a PS3. Fogo, acabaste logo com o ricaço. Não podias esperar mais uns anos? – dizia Miguel João. Aqueles dois, uns viciados do pior.
-Putos, calem-se. Nem acredito que acabaste com ele. Pareciam gostar muito um do outro, como se fosse perfeitos um para o outro, tal e qual como as minhas colunas são perfeitas para o meu computador.
-E meu, já começas com as tretas dos pc’s? E depois dizes que não tens namoradas, Fred. – Gozava Tiago. O meu irmão podia ser o mais velho mas era o piorzinho.
-Tiago! Deixa-te de coisas. Pois é Fred, às vezes nem tudo o que parece realmente o é. Fui muito bem enganada mas já não caio uma segunda vez na mesma.
-Nem acredito que ele foi capaz de te fazer aquilo.
-Aquilo o quê? – Ainda não tinha contado nada a Tiago. Dei um pontapé a Joana debaixo da mesa. Ela soltou um pequeno grito de dor. – Mau! O que é que aquele palhaço te fez?!
-Tiago, ele andava-me a trair. Agora caladinho! Não estragues a noite de natal!  
-Esse betinho da merda. Se o vir na rua vai-me ouvir, apanha um murro naquele foci…
-Tiago! Já chega!
-Ele traiu-te Maria? – Perguntava João Miguel.
-Fogo, grande cabrão. Agora já nem uma PS5 aceito vindo desse! – Toda a gente se riu do que Miguel João disse. O puto era engraçado, devia ter milhares de miúdas atrás dele, tal e qual como o seu irmão.
-Já chega! Vamos mudar de conversa. Então e tu Tomás, como tem corrido a vida? Namoradas?
-Tem corrido bem, na última semana estive em Tóquio e vou passar a passagem de ano em Nova Iorque, Times Square para ser exacto. Namoradas... Não tenho tempo para isso.
-Estou a ver, muitos negócios então.
-Sim, felizmente tem acontecido tudo muito bem. – disse enquanto pousava os cotovelos na mesa e juntava as mãos. – e vocês, como têm andado?

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Surprise Day - Parte III

-Fico contente por saber isso.
-A sério, acho que… Não sinto mais nada por ele a não ser ódio e raiva. Raiva de ter conhecido ele num dia e ter pensado que ele era o homem da minha vida.
-E quem é o homem da sua vida?
-Estou à espera para saber isso. Agora, mostra o que me trouxeste!
-A Matilde ficou com as coisas.
-Destes os bombons à Matilde? Ó, esquece. Já não há bombons nenhuns! Ela já os deve ter comido todos.
-Ah, e trouxe a sua prenda de Natal.
-David, não era preciso. – Fiquei incomodada com o que David tinha dito. Não tinha nada para ele.
-Não é nada de especial. É só uma recordação.
-Isso para um jogador de Futebol é o quê?
-Uma recordação.
-Ok, tudo bem. E posso abrir agora?
-Não, é só para o Natal.
 -Vá lá!
-Não.
-Por favor! – fiz um beicinho e olhei lhe com os meus olhos. Era assim que eu em miúda conseguia as coisas.
-Não!
-E se eu te der um beijinho?
-Um?
-Sim.
-Não sei…
-Dois?
-Isso já deixa que pensar…
Agarrei na mão dele e puxei, para ele se levantar. Já não tinha receio em beijar David, era algo que queria e que não me importava de fazer. Dei-lhe um beijo suave, algo muito de leve. Passei com a minha mão num dos caracóis dele e tentei fazer o seu formato,  coloquei as minhas mãos em seu rosto e beijei-o. Ele não resistiu e acabou por se agarrar em mim. Os  beijos eram cada vez mais enérgicos, mais ricos em amor, mais fortes, até que eu parei.
-A minha prenda?
-Ah, isso… Só no Natal.
David aproximava-se de mim para me beijar, eu afastei-me.
-Sendo assim não quero.
-Você não consegue me resistir.
-Aí não?
-Não.
David puxou para perto dele, estavamos a escassos centímetros de distância. Era difícil resistir a algo assim. Os seus caracóis estavam caídos sobre a minha testa, conseguia ver os seus olhos maravilhosos, as suas bochechas de puto e o seu sorriso maroto. Num impulso beijou-me, primeiro persisti mas depois acabei por ceder. Os beijos eram de paixão, sabia disso. Tudo estava a ser tão rápido. Como podia gostar de uma pessoa em tão pouco tempo? Eu sabia que David era extraordinário e que me surpreendia todos os dias. Ficava fascinada com a sua maneira de ser e de viver. Todas as vezes que estava com ele era como se fosse a primeira vez que tivéssemos juntos. Havia sempre algo para conversar, comentar ou descobrir. Os beijos cessaram e David voltou a sentar-se, fez sinal para se sentir a seu lado. Assim o fiz.
-Onde vai passar a sua passagem de ano?
-Não sei, este ano ainda não organizamos nada. Mas se houver alguma coisa devo ir ver os Xutos a Belém. Porquê?
-Ó, se já tem planos…
-Não tenho nada. Mas porquê? Ias-me convidar para alguma coisa?
-Bem, eu estou sozinho e estava pensando se você…
-Aceito! – Não deixe acabar a frase, para mim era suficiente.
-A sério? Não está brincando pois não?
-Não, não estou. Adorava passar a passagem de ano contigo, era mesmo muito bom. Onde vamos?
-Deixa isso comigo, é surpresa.
- Estás-me a matar hoje. Só surpresas.
-Sou muito simpático não acha? – disse de nariz empinado.
-Que convencido David. Mas sim, de facto és. Quando vais para o Brasil?
-Tenho avião marcado para dia 21 de madrugada.
-Hum… Que bom. Quantos dias vais?
-Volto dia 27 à noite. 
Um silêncio fez-se entre nós. Precisava de lhe dizer algo mas não tinha coragem para o fazer. Sabia que tinha que o dizer. Respirei fundo e encontrei coragem não sei bem onde.
-Vou ter saudades tuas David.
-Eu também vou sentir muitas saudades suas. Você sabe que a noite que eu passei aqui, o meu acordar foi dos melhores acordares que já tive nos últimos tempos?
-Não, não sabia. Desculpa David.
-Desculpa o quê?
-Por tudo o que te fiz. Tenho-te tratado como gato-sapato.
-Não tem que pedir desculpa por nada. Eu é que devia ter falado com você directamente e não por chamadinhas e mensagens.
-Eu gosto das chamadinhas e mensagens. – Encostei-me a ele, automaticamente David põe a mão por cima do meu ombro. – Mas gosto muito mais de ti ao vivo e a cores.
-Você gosta de mim?
-Muito David, acredita que sim. Tornaste-te numa pessoa muito importante para mim.
-E os seus medos?
-Agora só tenho um.
-Qual é?
-De um dia vir-te a magoar.
-Isso não vai acontecer, sabe porquê?
-Porquê?
-Porque a partir de agora é só a subir.
-Quanto mais alto se sobe, mais alta é a queda.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Surprise Day - Parte II

-Diogo?!
-Sim, sou eu. Eu sempre soube que me amavas, desculpa, eu sou um idiota. Desculpas-me?
Ora bem, por onde começar. Raiva, ingenuidade, hipocrisia, estupidez, idiota, filho de uma… Eram apenas algumas das palavras que me vinham à cabeça. Apetecia saltar para cima dele mas não para o beijar, mais para o esganar. Em vez disso, reagi com calma. Por momentos senti-me na pele de um “Serial Killer”. Na minha mente passava coisas como “Corto a cabeça e dou de comer aos leões, poderia haver maior ironia? Um lagarto ser comido por leões?”. Sorri, talvez o sorriso mais cínico que alguma vez fiz. Ele aproximou-se para me beijar e eu, só tive tempo para reunir todas as minhas forças e dar um soco naquela cara enganadora.
-Tu foste o meu maior erro! Eu nunca mais quero-te voltar a ver, ouvis-te? Manda-me as camélias que quiseres, faz o que tu quiseres. Eu odeio-te Diogo, entendes? Se pudesse voltava atrás e cancelava-te da minha vida! És o maior otário que eu já vi!
Voltei a pular para cima da bicicleta e andei o mais depressa que pude. Mandei a camélia para o lago artificial e entreguei a bicicleta à banca de aluguer. As lágrimas caíam, eu soluçava e as minhas pernas tremiam. Tentei recompor-me antes de voltar para casa. Eu não chorava por causa de Diogo, por tudo o que ele me tinha feito. Eu chorava porque tinha esperanças que fosse David. Ele tinha desistido de mim. Era verdade. Viu que dava demasiado trabalho a conquistar, era mais fácil aquelas raparigas que saltam imediatamente para o sexo. Como o Sócrates diz “Porreiro pá, Porreiro!”. Quando cheguei a casa, Matilde já tinha chegado. Para ela não estranhar, falei-lhe.
-Olá Matilde.
-Maria! Precisava tanto de falar contigo. O David ligou-me, ele…
-Ele que vá-se lixar!
-Que se passou?
-Nada. Apenas ele que me deixou de falar totalmente!
-Ele? Tu é que não atendes as chamadas dele! Nem as dele nem às minhas que ainda é mais grave. O pobre do rapaz não tem andado descansado, já me ligou super preocupado contigo!
-Desculpas. Olha, vou dormir. Não estou cabeça… - virei as costas a Matilde e alguém tocava à porta. Abri e parecia que o dia era de surpresas. David estava à porta com um saco que tinha uma prenda lá, uma caixa de bombons e… um ramo de camélias. – Outro com camélias. Que bom. Passou a ser a flor que mais detesto no mundo. – Virei as costas a David e fui para dentro do quarto.
-Estás à espera do quê para ires ter com ela!? – dizia Matilde encostada à porta da sala.
-Posso?
-Que pergunta parva, é claro que podes! Vai rapaz!
David bateu à porta pouco depois, eu estava deitada na cama com a olhar para as estrelas fixadas no tecto. David sentou-se a meu lado e ficou ali, sem perguntar nada, apenas a olhar.
-Que se passa? – disse-lhe num tom de voz irritado.
-O que fiz a você para me estar a responder assim?
-Ainda perguntas? Ficaste dois dias! Dois dias! Sem me falar e agora vens com camélias e bombons tentar dar-me a voltar.
-Posso explicar?
-Podes. – Embora dissesse que ele podia explicar, não estava minimamente interessada a ouvir.
-Eu liguei para você, várias vezes. Você é que nunca me atendeu o telemóvel! Mandei também mensagens e nada. A pergunta é mais, o que se passou com você!
-Mensagens? Chamadas? Só podes estar a gozar comigo.
-Está a duvidar? Então vou mostrar para você!
Levantei-me, já não valia a pena estar deitada, aquilo era uma posição de descanso e David não me deixava estar descansada. Deu-me para a mão o seu telemóvel e fiquei abismada quando vi as mensagens enviadas. O nome repetia-se, sempre o meu e o grau de preocupação de cada uma aumentava. Quando olhei para as chamadas feitas, mais do mesmo, o meu nome era o que se repetia mais vezes. Odiava estar errada mas naquele momento não podia estar mais feliz. Abracei-me a David, não queria esperar mais.
-Desculpa, desculpa, desculpa. Eu não recebi nada!
-Agora não quero nada vindo de sim, me acusou de uma coisa sem ter provas. Não quero não. – disse em tom de brincadeira, mesmo assim fiquei preocupada.
-Desculpa. Vês? É por causa destas coisas que digo que mereces alguém melhor.
-Não diga baboseira, vai? Mas, agora, o que se passa com você? Este mau humor não era só por causa de mim, pois não? 

-Não… Hoje no trabalho recebi Camélias, estava tão feliz. Eram tantas! Com elas vinha uma carta a dizer para ir ter ao Parque da Nações. Eu juro que estava feliz, mais feliz do que uma miúda no Natal. Pensava que eram tuas, numa forma de te redimires. Quando cheguei ao Parque, vi que não eras tu mas sim o Diogo. – David olhou para baixo, agarrei no queixo dele e  puxei para cima. Queria que ele ouvisse tudo com a mesma atenção. – Acho que nunca fiquei tão desiludida. A única vontade que tinha era sair dali a correr ou então mata-lo. Ele começou por dizer que estava arrependido e que me queria de volta. A minha paciência não deu para mais e quando ele ia para me beijar, dei-lhe um murro. – David tentou não sorrir. De facto, devia de ser engraçado de ver esta cena toda. – Não te rias! É grave! Até me magoei num dos dentes dele, tenho um arranhão.
-Como é que você tem um arranhão por ter dado um murro?
-Sei lá, é pequeno mas tenho aqui! Mas pronto, foi isso que aconteceu. O Diogo é finalmente um caso encerrado da minha vida!


Surprise Day - Parte I

-Sou assim tão horrível?
-Horrível? És linda mi
nha querida.
-Então e parva, sou?
-Não, nada parva!
-Visto-me mal?
-És a pessoa que mais estilo tem dentro deste clube. Mas porquê tanta pergunta logo de manhã?
Simples, já era Quinta e o David ainda não me tinha falado. Esqueceu-se de mim? Se calhar eu era isso mesmo, um brinquedo que ele usou e depois viu que não servia. Conclusão, deitou fora. Jogadores de futebol… Como pude ser tão ingénua? Lá nisso ele tinha razão, eu era ingénua.
-Maria… Maria?
-Sim?
-Estavas com a cabeça onde rapariga? Tens visita para fazer…
-Aí, desculpa. Estava mesmo distraída.
-Então despacha-te e vai lá.
Sai de trás do balcão e fui ter com as pessoas que se encontravam no exterior.
-Bom Dia! Quem vem para a visita? Podem-se juntar aqui ao pé da porta? Obrigada.
Abri a porta que dava acesso ao Museu, onde começava a visita. À medida que as pessoas iam entrando eu olhava para os bilhetes, para certificar que todos tinham comprado e rasgava um pouco do bilhete. Quando todas as pessoas entraram, fechei a porta e dei inicio à visita. Apresentei os museus e falei de alguns factos importantes sobre o Benfica e a sua história. Depois da visita aos museus, comecei por dar inicio à apresentação do Estádio, começando sempre com uma volta em redor do piso um onde as pessoas poderiam ver o ginásio, Benfica TV (de fora) e restaurante. Um dos pontos altos era sem dúvida a visita ao camarote presidencial.
-Podem-se sentar onde quiserem, estão há vontade. Aqui é onde o Presidente e outras pessoas da SAD se sentam. Nesta zona só se entra com convite. O Presidente senta-se na cadeira 12 da primeira fila. É a mais central em todo o Estádio. O Presidente do clube adversário senta-se sempre ao lado, no lugar 13. Número do Azar.
-Onde se senta o Pinto da Costa? – Perguntava um senhor já de idade. A sua pergunta provocou risada em todo o grupo.
-Esse individuo não vem para aqui. Não está autorizado. Para aqui só vêm senhores.
-Pois, proibida a entrada a animais não é? – dizia um jovem.
-Exactamente! – Obviamente que as pessoas acharam imensa graça mas já tinha quebrado uma das regras do clube. Não podia falar de outros clubes para além do Benfica mas bem, uma regra quebrada não fazia mal nenhum. Pouco tempo depois, um menino pequenino desce as escadas com uma camélia.
-É para ti! – disse com uma voz muito querida.
-Ó, obrigada meu querido!
-Olha o puto! Onde foste arranjar isso pá? – disse um rapaz novo, devia ser familiar do pequeno menino.
-Não fui eu, foi o… Um senhor.
-E quem era o senhor, sabes-me dizer?
-Ele disse para eu não dizer a ninguém.
-E se eu te der um chupa, dizes-me?
Acenou que não e foi a correr para o rapaz que eu achava ser seu familiar, disse-lhe algo que eu não consegui ouvir e o rapaz ficou surpreso com aquilo que ouviu.
                Camélias, haveria flor mais perfeita do que esta? Pela minha cabeça passavam mil e uma coisas mas eu continuava com os olhos postos na camélia. Um flor deixava uma mulher completamente atrapalhada.
-Desculpe mas, não seria melhor continuarmos?
-Ah, sim, claro.
Continuei com o roteiro da visita. No final, agradeci a todos e voltei para a porta 18, “o meu cubículo” como já tinha sido apelidado. Quando lá cheguei, Eunice colocava um enorme ramo de Camélias brancas e arrozadas dentro de um jarro, simplesmente perfeitas. Cheguei a uma conclusão.
-Eunice, entregaram-me isto durante a visita. Devem-se ter enganado, deve ser para ti.
-Quem me dera minha querida, isto é para ti. Coloquei-as aqui para não secarem, são tão lindas.
-Para mim? – Fiquei radiante, como se tivessem a dar gomas a uma criança. Nunca antes me tinham dado um ramo tão grande e bonito, nem nos tempos quando estava no hospital em que tinha o quarto cheio de flores.
-Sim. – Passei por baixo da portinhola e fui direita às flores. Cheirei-as, era um cheiro incrível. Adorava camélias. Eram tão perfeitas. – Ah, também deixaram isto para ti. – Eunice passou-me uma carta. Mordisquei o lábio e sorri de tanta felicidade. Até bati palmas, estava muito feliz. Desejava tanto que fosse David.
“Camélias, as flores mais bonitas do mundo. Comprei cinquenta mas mesmo assim não se compara à tua beleza. Estou à tua espera no Parque das Nações, descobre-me”
-Aí que romântico! – Dizia Eunice que espreitava por cima do meu ombro. Eu regozijava de alegria! David surpreendia-me a cada dia que passava. Era incrível, estava tão enganada sobre ele. – Então, estás à espera do quê para ir ter com ele?
-Ainda falta uma visita.
-Estás a brincar? Eu faço esta visita! Vá, vai!
-Obrigada Eunice, eu prometo compensar-te um dia. – Deixei as camélias em cima do balcão, ficavam tão bonitas que nem fui capaz de as retirar. Corri para o metro com a uma única camélia, a que o menino me tinha dado durante a visita. Quando cheguei à estação do Oriente, não parei, corri directamente para o Vasco e corri-o de uma ponta à outra, quando cheguei lá, abri os meus olhos ao máximo. Tentei pôr-me no lugar do David. Ele não se ia expor muito por isso só poderia estar num sitio sossegado. “Os parques!” pensei, o único problema é que naquela zona existiam montes de parques e seria difícil correr aquilo tudo. Como algumas vezes me dá, tive uma ideia brilhante. O melhor era alugar uma bicicleta, assim era mais rápido. A felicidade era tanta que o meu cérebro nem funcionava bem. As palavras saiam distorcidas, parecia uma chinesa a tentar falar português ao fim de duas semanas em Portugal. Na minha cabeça passavam mil e uma coisas, o que iria fazer quando o encontra-se, o que lhe iria dizer, tantas coisas mas uma coisa era certa, devia ser das pessoas mais felizes do mundo, tão feliz que o sorriso que tinha na cara era inexplicável. Não conseguia parar de sorrir. Passei pela “avenida” onde estão as bandeiras e no final virei para o lado esquerdo. Fiquei surpresa ao ver quem estava logo nos primeiros bancos.
-Vieste!